Há algo de desconcertante em perceber, aos trinta ou quarenta anos, que estamos repetindo com precisão quase coreográfica situações que juramos ter deixado para trás. O relacionamento que terminou mal se reconstrói com outro rosto. O conflito com a chefia reaparece em cada novo emprego, como se o cargo mudasse mas o enredo permanecesse intocado. A amizade que sempre acaba do mesmo jeito. A promessa de mudança que, a cada janeiro, encontra em março o mesmo muro de sempre. Não é preguiça, não é falta de inteligência, não é má sorte. É algo mais antigo e mais engenhoso do que qualquer uma dessas explicações.
A repetição é uma das formas mais insistentes que o inconsciente encontra para se comunicar. Quando algo não é visto, não é escutado, não é integrado, ele volta. Volta travestido de coincidência, de azar, de destino. Volta com a obstinação de quem tem algo urgente a dizer e não encontra ouvidos dispostos.
Jung percebeu que por trás da vida aparentemente caótica de seus pacientes havia padrões — não padrões estatísticos ou comportamentais no sentido estreito, mas configurações psíquicas profundas que operavam como verdadeiros roteiros. Não escritos pela pessoa conscientemente, mas atuados por ela com uma fidelidade impressionante. Como um ator que representa a mesma peça em teatros diferentes, com elencos diferentes, e só não percebe que a peça é a mesma porque está ocupado demais vivendo cada cena como se fosse inédita.
Esses roteiros são construídos muito cedo. Nascem das primeiras experiências de vínculo, de abandono, de acolhimento ou de falta dele. Nascem do que nos foi dito e do que nos foi calado, do que pudemos sentir e do que precisamos esconder. Com o tempo, cristalizam-se em maneiras de perceber o mundo que nos parecem tão naturais quanto respirar — e justamente por isso são tão difíceis de identificar. Não questionamos o que nos parece óbvio. E os padrões mais poderosos são aqueles que nos parecem simplesmente a realidade.
Na Psicologia Analítica, essas configurações recebem o nome de complexos. A palavra, hoje banalizada pelo uso popular ("fulano tem complexo de inferioridade"), designa na verdade algo muito mais preciso e poderoso: núcleos autônomos de energia psíquica, carregados de afeto, capazes de tomar temporariamente o controle da consciência. Quando dizemos que "perdemos a cabeça", que "não era eu naquele momento", que "algo tomou conta de mim", estamos descrevendo com surpreendente exatidão o funcionamento de um complexo.
Cada complexo carrega uma imagem, uma emoção e um padrão de comportamento. O complexo materno não é simplesmente a relação com a mãe — é toda uma constelação de sentimentos, expectativas e reações que se ativa diante de situações que, de algum modo, evocam aquela relação original. Pode se ativar diante de uma parceira, de uma chefe, de uma instituição. Não importa quem está na frente; o que importa é que algo naquela situação toca a nota certa — ou a nota errada — e o complexo desperta, trazendo consigo toda a carga emocional de sua história.
É por isso que a repetição não é aleatória. Não repetimos qualquer coisa; repetimos exatamente aquilo que precisa ser visto. A psique é econômica em seus métodos e implacável em sua insistência. Se você não escutou da primeira vez, ela repete. Se não escutou da segunda, aumenta o volume. E se necessário, aumenta a dor.
Diante da repetição, a reação mais comum é tentar mudar as circunstâncias. Trocar de emprego, de cidade, de parceiro. Cortar pessoas, redesenhar a rotina, fazer uma viagem. Nada disso é inútil — às vezes uma mudança externa é de fato necessária — mas quando o padrão é interno, a mudança de cenário funciona como trocar a moldura de um quadro que continua o mesmo. Depois de algumas semanas ou meses, o incômodo familiar retorna, e com ele a sensação desanimadora de que nada realmente mudou.
Isso acontece porque o que gera a repetição não está fora. Está na forma como percebemos, reagimos, nos posicionamos. Está no ponto cego que carregamos conosco para onde quer que vamos. A cidade nova não resolve o conflito antigo; o parceiro novo não preenche a lacuna que o anterior também não preencheu — não porque os parceiros sejam inadequados, mas porque a lacuna não é deles.
Há uma imagem mitológica que Jung apreciava: a de Sísifo, condenado a empurrar montanha acima uma pedra que sempre rola de volta. O mito é frequentemente lido como uma condenação, um castigo absurdo. Mas talvez o ponto não seja a pedra que rola; talvez o ponto seja a montanha. O que seria diferente se Sísifo, em vez de empurrar a mesma pedra pelo mesmo caminho, parasse para examinar por que está naquela montanha?
Se pararmos de olhar para a repetição como fracasso e começarmos a olhá-la como linguagem, tudo muda. Cada vez que o padrão se apresenta, ele traz consigo informação. Cada recaída, cada tropeço no mesmo obstáculo, cada relação que termina com o mesmo gosto amargo — tudo isso está dizendo algo. Não algo genérico, não uma lição de autoajuda palatável, mas algo muito específico sobre você, sobre o que ficou inacabado, sobre o que precisa ser olhado com mais coragem.
A repetição é, sob certa perspectiva, uma segunda chance. E uma terceira, e uma quarta. O inconsciente é insistente porque é generoso — ele não desiste de apresentar a questão até que ela seja de fato escutada. Os sonhos, aliás, frequentemente antecipam e iluminam esses padrões. Não é raro que um sonho recorrente esteja intimamente ligado a uma repetição na vida desperta. Ambos falam a mesma língua, e ambos pedem a mesma coisa: atenção.
Interromper um padrão não é um ato de força de vontade. Não se trata de decidir, com os dentes cerrados, que "desta vez será diferente". Esse tipo de determinação, por mais sincera que seja, costuma durar até o próximo momento em que o complexo se ativa — e aí o roteiro antigo se impõe com uma força que a vontade sozinha não consegue conter.
Interromper um padrão é, antes de tudo, um ato de consciência. É conseguir, no exato momento em que o roteiro começa a se repetir, perceber que ele está se repetindo. É conseguir criar, mesmo que por um instante, uma distância entre você e a reação automática. Esse instante de distância — pequeno, frágil, difícil de sustentar — é onde a liberdade mora.
A psicoterapia existe, entre outras coisas, para cultivar esse instante. Para criar um espaço onde os padrões possam ser vistos de fora, nomeados, compreendidos em suas raízes. Onde o complexo possa ser sentido sem ser atuado. Onde a repetição, em vez de ser vivida no automático, possa ser observada, questionada, e eventualmente transformada. Não eliminada — porque os complexos não desaparecem — mas tornada consciente. E o que é consciente, ainda que doa, pode ser escolhido de outra forma.
Talvez você reconheça em sua própria vida algum desses ciclos. Se for o caso, vale a pena se perguntar: o que esse padrão está tentando me dizer? E mais importante: estou disposto a escutar?
Se quiser conversar, estou à disposição por email ou WhatsApp.
Rafael Longo — Psicoterapia Analítica (11) 98111-2929