Sonhos


Quem sonha o sonho?


Em nossa vida desperta conservamos uma noção de razoável continuidade e controle. Não nos perguntamos a todo o tempo quem somos, pois confiamos na narrativa que construímos e alimentamos para responder a este questionamento: o nosso Eu. Esta personalidade sobre a qual podemos contar histórias, traçar uma linha do tempo mais ou menos precisa. No decorrer do dia também confiamos na nossa consciência como motor principal (que cremos ser o único) de nossos feitos, de nossa vontade. Mas nos bastidores de nossa alma e mente, há outras forças atuando em direções distintas, com outros métodos, em lugares que a luz de nossa consciência não alcança. E isso fica mais claro quando, ao fim da jornada diurna, nos deitamos e nos permitimos mergulhar na escuridão da noite.

À noite, alguém mais parece tomar o controle da programação de nossa mente. Um diretor — que também produz, atua em vários papeis, constroi o cenário e tudo o mais — trata de nos apresentar situações inusitadas para que possamos observá-las ou mesmo vivê-las intensamente. Na imensa maioria das vezes, o que entendemos como Eu não tem muito controle. A cada vez em que caímos no sono, estamos de certa forma nos lançando (lançando nosso Eu, sobretudo) em um mar de infinitas possibilidades, prestes a viver histórias imprevisíveis. O Eu só sonha o sonho como ele se manifesta, assumindo o papel que lhe cabe, definido a priori. Na noite de hoje podemos nos ver em meio a uma comédia non-sense ou protagonizando a mais épica e emocionante batalha em defesa de nobres ideais. Mas afinal, de quem é essa escolha?

O sonho é construído no inconsciente, este misterioso lugar de nossa existência, lar de tudo aquilo que não conseguimos ver imediatamente. Muito mais extenso do que a consciência, é um lugar repleto de vida, movimento. Aí encontramos elementos antiquíssimos, comuns a todos nós, modelos de como pensar, sentir, agir, de como ser humano, em nossas faltas e excessos. Agrupados aqui e ali temos ideias carregadas de afeto, conceitos que nos formam e nos deformam, compondo ilhas de conteúdos que possuem tal força que, vez por outra, acabam tomando o controle da consciência. O Eu é só uma destas ilhas, central na consciência mas apenas uma entre muitas outras no mar do inconsciente, incapaz de desvelar o tamanho do oceano e sua companhia, suas correntezas e marés. Para que a consciência possa ter um vislumbre do que se passa neste lugar mágico, o sonho é produzido. Assim os conflitos, as compensações, as dinâmicas incessantes do nosso mundo interior podem ser apresentados à consciência.

Se o Eu é o elemento central da consciência, podemos pensar também no centro da totalidade da psique, englobando a consciência e a inconsciência. Este "ser" que representa tanto o centro quanto a própria totalidade é o responsável pela fabricação do sonho, o diretor multitarefas que escreve e atua. Ele trabalha incansavelmente em prol do desenvolvimento do sujeito, em seu processo de amadurecimento e individuação, do florescer de sua essência. Onisciente por ser a própria totalidade, pode lançar mão de qualquer coisa que esteja no inconsciente para fabricar sua obra noturna, para ser escutado e entendido. Sabe o tamanho do Eu e tenta estabelecer uma ponte com ele; e espera que o Eu "cresça" e também faça a sua parte. Diante de tanto poder não tardamos, como espécie, a chamá-lo de Deus, a ouvir a sua voz como a voz de Deus. Mas isso talvez seja assunto para outro texto.

O que podemos já fazer para trabalhar nesta ponte é prestar atenção no que está sendo apresentado a cada noite. O próprio ato de começar a anotar os sonhos já produz efeitos imediatos; o inconsciente está sendo escutado, respeitado, e responde de acordo. E ao trazer o sonho para análise em contexto terapêutico, inúmeras outras camadas se abrem. Para a psicoterapia cada sonho é uma joia simbólica, que nos coloca diante de uma imagem quase direta da alma do analisando. Ao brincarem juntos com as possibilidades de significação dos sonhos, é como se analista e analisando circulassem pelo próprio inconsciente, atentos à sua voz. Uma preciosidade terapêutica.

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